15 janeiro, 2015

Amor de cão

Quando a gente é intenso, tudo fica intenso. O amor pela vida, por nossos pais, amigos, pelo namorado, o peixinho beta que ganhamos na festa infantil, pelos primos, por chocolate, pelo anel que sonhamos em ganhar toda vez que olhamos a vitrine da Tiffany’s e por nossos queridos e amados cachorros. Não falo dos homens que passam pela vida das mulheres como um tsunami em dia de verão, falo dos cachorros que latem au-au.

Eu sempre fui do tipo intensa e sou uma apaixonada por bichos. Combinação perigosa essa. Choro em filme que o cavalo morre e, muitas vezes, nem derramo uma lágrima se a mocinha do filme falece no final. O filme Marley e eu? Nossa, solucei no cinema e saí com a cara mais inchada do que quem é picado pelo marimbondo da áfrica. Titanic, Jack e Rose ficaram no chinelo.

Os cachorros me inspiram coisas diversas. Eles me fazem falar com a voz de criança mais ridícula da vida, me fazem fazer dança do xixi, do cocô, me fazem correr pela casa em círculos e achar a maior graça, os cachorros tem o poder de dominar as nossas camas e ocupar um espaço três vezes maior do que eles só porque está calor e dormir na transversal é mais gostoso. Ah, os cachorros. São tão especiais que ocupam memória do seu celular, ocupam a sua cabeça na hora de escolher a ração especial ou os ossinhos de roer e limpam a sua conta bancária porque a cama em forma de Batman é a cara dele, apesar de ser três vezes mais cara do que a cama comum. “Eu hein, meu cachorro não dorme em cama comum, rs”. E a ração? Não pode ser simples, tem que ter sabor de pato virgem do himalaia, senão ele não come. Afff, eles custam, mas nós não estamos nem aí. Gastamos tubos com essas pestinhas que alegram os nossos dias.

O supermercado fica mais caro, os produtos de limpeza deixam de ser somente o bom e velho Veja e começa a ser: o tira manchas de xixi, o spray que tira odor de cães, a fralda com maior absorção das caquinhas, o pano que você não precisa esfregar no sofá, o protetor do bom o velho tapete e por aí vai.

Assim que compramos ou adotamos os nossos cachorros, sabemos que estamos comprando também felicidade, mais trabalho, amor incondicional e, também, uma tristeza a se viver mais para frente. Esses danados nos fazem ir do céu ao muro de lamentações em pouquíssimo tempo. Dez anos? Quatorze? Dezesseis? Poxa, é o tempo suficiente de se apegar como membro da família mas é nada em relação a nossa vida.

O Simba foi meu primeiro cachorro. Ainda é porque ele está vivíssimo. Com uma catarata aqui e um probleminha cardíaco ali, ele vai vivendo super bem. Chamo ele de highlander. Aquele ali já sofreu acidente de carro gravíssimo e sobreviveu. O meu “simbiriscuit” – ah! porque inventar apelidos ridículos é comigo mesma – é um Yorkshire minúsculo, gordinho e que tem um bafinho de urubu, rs! Ele é carinhoso, adora dar umas lambidas e aprendeu a latir quando a campainha toca com a Carmella. A “Memela” é uma Griffon de Bruxelas que veio dos EUA com a minha irmã. Carmella, inocentemente, veio passar umas férias de verão na casa de seus avós e por aqui ficou. Não a culpo. Clima gostoso, mimos o dia todo, uma cama acolchoada de bolinhas e uma casa na praia pra chamar de sua. Sua carinha é uma mistura de mel com castanho escuro, ela cultiva uma barba maravilhosa que fica toda imersa a cada tomada de água. Não preciso nem dizer as dezenas de beijos babados que já ganhei dela.

Quando saí da casa dos meus pais, queria levar o Simba (que é meu oficialmente) mas o apego dele com a Carmella é tão grande que eu fiquei com dó e achei melhor deixá-lo lá. Aquela dupla funciona entre tapas e beijos mas não vivem sem o outro. Ok, mudei para quatro quarteirões de distância então não foi tão ruim assim, mas confesso que deixar a casa dos meus pais foi mais fácil do que deixá-los. Meus pais são dois babões pelos dogs, o que também dificultaria a saída de um cachorro de lá.

Quando me mudei, senti felicidade em estar em casa mas me faltava algo. Eu e meu namorido somos dois cachorro-lovers e em pouco tempo descobrimos o que nos faltava.

Um belo dia numa feira de adoção nós nos apaixonamos pelo Lebron. Um vira-lata sofriiiiido, manco e que ninguém queria adotar. Resolvemos dar ajuda financeira ao cachorro e pensar se queríamos tomar esta decisão. Semanas depois o Leb já morava em casa sem autorização prévia do namorido que viajava a trabalho. Rs! A surpresa quando ele chegou em casa? Um vira-lata porte médio, totalmente traumatizado, deficiente físico e que morria de medo de gente. Fácil, né?

A nossa convivência foi nos aproximando e, de repente, o Leb já era filho e já se instalava pelo apartamento todo. Paramos por aí? Não! Era a vez do namorido fazer algo para agitar as nossas vidas. Foi aí que veio o Galguinho, meu caçula alegre que corre pela casa toda todos os dias e que AMA a nossa cama como se fosse dele. Galguinho e Lebron viraram uma dupla que dorme junto, que se ama e que briga o dia todo pela nossa atenção. É a nova geração da Carmella e Simba.

Há pouco menos de dois meses, recebemos a notícia de que a Carmella estava sofrendo de uma doença gravíssima renal. Pronto, o nosso mundo desabou. A veterinária deu um mês de vida para ela e eu, minha mãe, minhas irmãs e meu pai nos vimos naquela situação que citei acima. Como faz nessas horas? É essa dor horrorosa mesmo que todo mundo sente? Tudo bem chorar todos os dias pelo seu cão? Tudo bem rezar incessantemente para São Francisco a salvar? Meu Deus, mas ninguém me avisou que ia ser assim, eu achei que só tinha a parte boa nisso tudo.

Pois é. Toda aquela sua alegria de brincar, beijar, abraçar, viajar, dormir junto se transformou num chororô sem precedentes. Eu vos escrevo com lágrimas nos olhos mas ainda com o pingo de esperança que sobra. A Carmella piorou de ontem para hoje. Os rins estão parando de funcionar e parece que aquela hora que a gente nunca acha que vai chegar, está se aproximando.

A gente pode dizer que está se preparando ou até nos enganar e afirmar que estamos preparados, mas a real? Não estamos. Como não se emocionar ao ver o seu álbum de família com ela nele? Ao lembrar das vezes que ela aprontava? Que “rebolava” quando alguém que ela gostava chegava em casa? Como não sofrer ao pensar que o latido mais “irritante” da campainha nunca mais será ouvido? Que não vamos mais escutar o “auuu”, estridente, quando o interfone toca e falamos “pode subir”. Como lidar com a dor de perder uma das melhores cachorras que já tivemos na vida?

Cada um de nós tem a sua história com a Carmella, e a Carmella tem a sua história com cada um de nós. Isso, nenhuma partida vai apagar e nem nos fazer esquecer. Mas a dor de vê-la ir embora é doída demais.

Um beijo para todos os donos de seres vivos especiais que se foram ou que estão aqui entre nós. Só quem viveu ou vive, sabe o que a gente sente.

E um beijo e abraço apertado na nossa princesa Carmella. Que você saiba todos os dias que o nosso amor por você vai além da vida. Será eterno.

Amor de cão esse.

Lebron e Galguinho, grude!

Lebron e Galguinho, grude!

 

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Galguinho :)

Galguinho :)

 

Carmella e Simba

Carmella e Simba

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