31 janeiro, 2015

Você mudou depois que teve bebê?

 

 

Escuto muito essa pergunta.

No dia em que o Jack nasceu eu lembro de estar na cama do hospital Mount Sinai aqui em Nova York e receber uma mensagem de uma amiga minha: “Parabéns, ele é lindo! Você se sente diferente ou mudada?”. Eu lembro de parar e pensar sobre a pergunta dela. Com o Jack ali ao meu lado super recém nascido e meu marido tirando um cochilo na cadeira enquanto a TV estava ligada em um canal qualquer, eu refleti.

A resposta automática seria: Claro que sim! Mas a verdade é que não me senti mudada no sentido da minha personalidade, do meu jeito, dos meu valores, da minha essência. Senti que a organização das prioridades na minha vida tinha mudado completamente, mas respondi para minha amiga: “no fundo, no fundo continuo a mesma”.

Até hoje lembro com muito carinho de todas as minhas amigas que já tinham tido bebês que foram incrivelmente honestas comigo sobre os sentimentos pós bebê. Na minha opinião, como já escrevi antes, muitas mulheres batem na tecla constantemente de que a vida após o nascimento do bebê é perfeita, romântica e linda.

Quantos posts você vê no instagram que dizem: #amor maior do mundo? Milhares. Mas e as hashtags: #maior cansaço do mundo ou # hoje tá difícil ou # não paro de chorar ou # ninguém me disse que o primeiro mês ia ser essa barra?! Claro que a maternidade transforma. Do mesmo jeito que grandes acontecimentos na vida das pessoas também as transformam de maneira diferente. Mas a questão é: não deixamos de ser quem somos porquê temos filhos. E acho que o constante mantra de que nós mulheres temos que amar a maternidade logo que ela acontece nos deixa um pouco em crise sobre quem somos e quem achamos que temos que ser. Faz sentido?

Começa pela gravidez. Tudo que fazemos durante a gravidez não influencia somente nosso corpo e nossa saúde, mas também a do bebê. Então quando mulheres estão esperando bebês são descritas como “as grávidas”. Depois viramos a “mãe do Jack (o outro nome)” e quando somos somente nós? O que acontece com a nossa identidade como mulher, profissional, amiga, irmã, filha, vizinha, esposa? Por isso que digo que não sinto que minha essência mudou, mas a minha identidade foi re-organizada e a identidade de cuidadora e mãe ganhou destaque. Eu sinto o maior do mundo. Mas eu acredito que não posso esquecer das minhas outras identidades que me trouxeram até aqui onde estou nesses 31 anos de vida.

Um dos livros mais legais que já li sobre ter filhos é o famoso Crianças Francesas Não Fazem Manha – Os Segredos Parisienses na Arte de Criar Filhos da escritora Pamela Druckerman (que eu conheci pois fizemos o mesmo mestrado e sou fã, em anos diferentes). Ela diz em uma passagem do livro que as mulheres americanas tem uma necessidade de falar sobre maternidade constantemente, que elas gostam de dividir tudo. Já as francesas tem menos paciência para o assunto.

Eu me vejo mais para o lado das que falam mais (escrevo!) mas ao mesmo tempo sempre reflito sobre outros interesses que eu tenho que não envolvem bebês e mais do que isso tento ao máximo ter conversas honestas com outras mães e não mães sobre as partes difíceis de ter filhos. Precisamos de mais mulheres falando abertamente sobre isso do que da patrulha das mães perfeitas. Hoje em dia as redes sociais deixam mais fácil esconder as partes difíceis da maternidade, falar sobre os temas que nos deixam culpadas e deixam mais fáceis maquiar essas realidades com filtros que beiram a perfeição.

Com certeza eu mudei depois que tive o Jack. Mas eu espero que essa mudança seja parte de uma evolução minha como ser humano e também espero que minhas várias identidades habitem meu um só corpo em paz.

 

Xoxo

Gabi

  • Jessica Paula Machado

    Lindo o texto Gabi! adorei.
    ps: o seu bebe é a coisa mais linda mesmo

  • Vivi Marcondes

    Nao consigo parar de ler seus textos.. Ja era fã de Mica e de Gabi Blogueira exclusiva, agr sou fã de Gabi Mãe escritora mara! Bjosss

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